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sexta-feira, 1 de outubro de 2010

III Triatlo Cidade de Setúbal




Foto: Paulo Pitarma

No último sábado participei no III Triatlo de Setúbal, o segundo olímpico da minha carreira. Depois de em Aveiro ter empenado de sobremaneira, desta vez a minha táctica era semelhante à do Jesualdo quando jogava fora na Liga dos Campeões. Defender, defender e defender. O resultado é que podia variar. Podia levar os 5-0 do ano passado no Emirates ou empatar 2-2 em Old Traford. Ganhar? É tão provável eu ganhar alguma coisa para além de um empeno como o Jesualdo ganhar em Inglaterra.
A estratégia seria poupar-me na natação, no ciclismo procurar um bom grupo (mesmo que para isso tivesse que esperar por alguém vindo de trás) e na corrida, que tinha uma rampa com 8% de inclinação para repetir em cada uma das 4 voltas, dar o que podia. Dois bidões, dois saquinhos de gel. Nada de aventuras desta vez. E meias. Sim, meias, calçadas logo no início para as bolhas nos pés não me matarem.

Natação (1.500m)

Em Aveiro fiz esta distância sem fato em 32 minutos. Depois talvez tenha pago isso com o cansaço que tive na bicicleta e na corrida (péssimos tempos). Agora ia mais devagar mesmo que me sentisse bem.
Já aqui tinha falado que nos últimos tempos não tinha levado porrada, que a coisa estava a melhorar nesse aspecto. Para a próxima vou ver se fico calado. Soa o tiro de partida, primeira braçada e, logo ali, pontapé na cara. Sim, ao estilo Bruce Lee. Agarro-me à cara, deito a língua na zona e pronto, já tinha aberto qualquer coisa dentro da boca. Engulo a bela água da Foz do Sado para desinfectar e sai avermelhada. Penso dar duas braçadas e voltar para trás, mas pronto, uma pessoa metida dentro de água depois de 350 km não vai desistir logo ali mesmo com a bochecha deslocada. Siga então para a frente. Em último, pois claro.
Talvez tenham sido uns 30 segundos, não faço ideia, mas estava mesmo em último. Não foi por isso que deixei de jogar à defesa. Coloco um ritmo confortável e vou recuperando lugares. Quando contornei a primeira bóia vi que já havia uma série de nadadores para trás. Continuando agora a favor da corrente do Sado, mas a levar com as ondas do mar de lado (que belo momento de poesia este!), cheguei à segunda bóia e é hora de regressar à costa. Como agora tenho a corrente do Rio a bater-me pela direita, vou nadando meio de esguelha. A bóia parece mudar sempre de direcção e eu sempre a fazer o esforço ficar no seu enfiamento. Quando ela fica mais perto, parece que sou empurrado até Sesimbra numa ou duas braçadas. Mas que grande volta que fui dar. E contra a corrente, lá volto até à bóia seguindo a lutar contra o Sado até ao fim da primeira volta.
No início da segunda volta olho para o relógio e vejo 22 minutos (o quê?? está tudo doido??). Não, eram mesmo 22 e tinha que recuperar um pouco. Tento acelerar e alcanço um grupo que vai a uma velocidade confortável. Chego ao terceiro troço novamente e evito chegar novamente a Sesimbra, ou melhor, tento evitar. Passado um bocado já ando por baixo de um barco que estava por lá ancorado, e pouco tempo depois lá estou eu a passar no Portinho da Arrábida empurrado pela corrente. Resultado: lá se foi o grupo e toca a recuperar novamente. Mas em câmara muito lenta, com tanta corrente parecia que não conseguia sair do sítio. Quando chego ao parque de transição: 44 minutos, daí a pressa das pessoas a dizerem para eu passar no tapete que o controlo ia fechar. Pois, parece que escapei por 51 segundos. Que vergonha! 44:09 é mesmo vergonhoso.

1ª Transição e ciclismo (39 km)
Apesar do tempo que fiz na natação, fiz a transição com calma para recuperar do ritmo cardíaco acelerado por causa de um troço contra a corrente. Tirei o fato, calcei as meias e as sapatilhas já estavam nos pedais (sim, já tenho sapatilhas de triatlo). Portanto, está tudo. Começo a correr. E mandam-me parar. Faltava o capacete. E pronto, o meu primeiro stop and go. Com isto, mais um tempo vergonhoso: 2:23 na transição e nem as sapatilhas tinha calçadas.
Quando começo o ciclismo vejo os meus antigos colegas de triatlo. Sim, os do ano passado. Já há muito tempo que não os via. Estava na hora de acelerar. Ao contrário de Aveiro era um percurso pouco sinuoso e com muitas rectas. 5 voltas e um retorno no ponto mais afastado. Era a altura de recuperar tempo (sim, porque com tantos atrasos acabar o ciclismo antes das 2 horas começava a ficar difícil, iria ter que andar acima dos 30 km/h).
Vou por isso para a frente à procura de um grupo de jeito. Vou ultrapassando ciclistas e levando alguns atrás de mim, que se recusam a ir para a frente quando lhes dou passagem. Estava entregue a mim próprio, mas a sentir-me com força.
Alguns tinham medo do paralelo que ia aparecendo em dois troços pelo meio. Mas um homem do norte está habituado a isso. Nós, que para chegar ao alcatrão após 5 quilómetros de paralelo não são umas rectazinhas que nos fazem vacilar. Aliás, o paralelo de Setúbal é bem mais confortável que o alcatrão das estradas da Trofa. O único senão: um bidão que saiu a correr e que nunca mais o vi. Fez-me falta aquela água.
Chego ao final da primeira volta e continuo a puxar. Felizmente surge um corredor vindo de trás (não sei se era da minha volta ou não) e passa para a frente. Felizmente um momento de descanso. Vou na roda dele, e sentia-me bem, apesar do ritmo forte. Depois do retorno, quando sinto a velocidade a esmorecer, vou para a frente, mas ele quase não me deixa, quer puxar ainda mais. Pronto, amigo eu vou na roda, não te preocupes. E lá fui.
Na terceira volta somos alcançados por um grupo grande, que devia ter corredores de várias voltas. Ia a um excelente ritmo e eu estava com forças para encostar. Foram as melhores 2 voltas deste ano. Ali, confortável no centro do pelotão, com gente muito boa a puxar e a passar ciclistas atrás de ciclistas (alguns colavam, como o meu amigo Jorge Carneiro e outros iam perdendo o contacto). No final da minha quarta volta a grande maioria do grupo acaba o segmento e lá vou eu para a frente. Faço quase todo o percurso de ida na frente (às vezes o Jorge ia lá, mas estava mais cansado por ter feito uma parte maior do percurso sozinho) e na vinda mando os meus colegas puxar. Foi um regresso bastante fraco, mas estava na hora de me poupar para a corrida e não estava na hora de fazer maluqueiras. O ritmo decaiu e acabei por entrar à rasquinha antes das duas horas do controlo. Apesar disso, um tempo muito bom: 1:12:42, acima dos 32 km/h. A minha melhor prestação no ciclismo. Ou seja, se tinha perdido 12 minutos na natação para Aveiro, agora recuperei 14 minutos no ciclismo e já não estava numa prova vergonhosa.

2ª Transição e Corrida (10 km)
Não há muito a dizer desta transição. Aproveitei para beber, estava algo desidratado por ter perdido um dos bidões logo no início e voltei a ir nas calmas porque logo a seguir vinham os tais 500m a 8%.
Começo a correr e a subir e sinto-me bem, a transição não me pesa. Na subida começo a impor um bom ritmo e a passar alguns atletas. Chego ao cimo algo ofegante e preparo-me para descer. E aí é que me parece que vai sair tudo pela boca. É a dor nos abdominais (inícios de pubalgia?), é dor de burro, é respiração ofegante, é princípios de cãibras. Bem, é muito pior descer que subir. Reduzo a velocidade, alguns passam-me e encosta-se a mim novamente o Jorge Carneiro. Quando me preparava para dizer-lhe adeus e vai à tua vida, acaba a descida e sou eu que ganho uma nova vida. As cãibras desaparecem e as outras dores vão diminuindo de intensiadade. Sinto-me bem quando volto a subir e volta após volta vou ganhando confiança. Na última ainda vou com forças para um forcing final. Um único problema: bolhas nos pés a aparecer. Ultrapasso 4 colegas (o último o Eurico, meu vizinho no Dragão) com um ritmo de quem quer baixar das 2:50:00 mas já era tarde demais. A corrida foi feita em 50:22. Não foi brilhante foram 2 km a subir a 8%. Também não foi nada mau e tirei quase 3 minutos a Aveiro (onde as bolhas nos pés me afectaram mais).

Resultado final
A aventura custou-me 02:50:52, menos 4:17 que em Aveiro e após uma natação de 44 minutos. 141º lugar em 174 à partida (24 foram eliminados). Com uma natação minimamente aceitável teria baixado do 2:40:00. Mas afinal não fui só eu. Todos tiveram tempos estranhíssimos na natação. Não tão maus, é certo, mas fraquinhos para o habitual. Ao menos isso.
Depois dos empenos nestas distâncias (Matosinhos e Aveiro), finalmente uma prova onde acabei bem e a sentir-me com força. Para a próxima talvez arrisque um pouco mais. Boas indicações para a próxima época. Fiz as pazes com os Triatlos Olímpicos.
Ah, e preciso de sapatilhas novas! Já chega de bolhas!

Uma referência final: Não ficava nada mal à organização alterar os critérios de desclassificação em provas deste tipo. Percebo que as estradas não podem estar muito tempo cortadas, mas no ciclismo também modificam os horários de controlo em função do desempenho dos ciclistas e das dificuldades das etapas. Muita gente fez 700km para ser eliminado e isso não é bom para ninguém. Por fim, os polícias facilitaram um pouco, quer nos atravessamentos, quer com a entrada de um carro no percurso já no final da minha prova. Uma questão a rever.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

IV Triatlo de Aveiro



O Triatlo de Aveiro marcou a minha estreia na distância olímpica. No entanto, a preparação deste triatlo ficou marcada, por um lado, pela morte do meu avô, pouco mais de uma semana antes (curiosamente ele natural de Cacia, Aveiro) e também pelos ensaios de Feupville. Se a segunda questão não fez com que perdesse treinos, no primeiro caso isso aconteceu, por razões óbvias, e logo na semana que marcava o topo da preparação. De qualquer forma nem um nem outro caso seriam desculpas para uma má prestação.
Pelo meio encontro o Rui Pena e o Mark Velhote, que se encontra prestes a iniciar-se nestas lides. Aliás, todas as fotos aqui presentes são do Mark, que quis perceber como funcionam estas coisas vendo do lado de fora. Ah, e gostei do pormenor de termos o nosso nome no Parque de Transição, até parece que somos gente importante.



Natação (1500m)




A água parecia estar limpa. Viam-se peixes e nem pareciam ser taínhas. Até que, de repente, entram 200 mamíferos dentro de água revolvendo todo o lodo acumulado no fundo da Ria de Aveiro. E por baixo do lodo deviam estar acumuladas milhões e estreptococos, enterococos, coliformes fecais, E. coli, para além de tudo o que é Nitratos, Mercúrio, Sulfatos e mais o que quer que seja. De repente a água limpa ficou castanha e o cheiro ficou semelhante ao de uma suinicultura junto ao Rio Lis.
Depois, já não bastava estarmos a nadar pelo meio de todos os tipos de poluição que ainda nos mandaram sair da água e voltar a entrar. Ainda tive a esperança que fossem analisar a água e com o resultado mandar-nos para as piscinas municipais, mas não era mesmo porque havia gente agarrada as boias e à linha da partida.
De qualquer forma isto é um caso de saúde pública, acredito que a água não esteja muito poluída quando fazem as análises,mas com esta gente toda a levantar o lodo, não acredito que a Ria esteja em condições para receber uma prova.
Esquecendo tudo isso, e assegurando que sobrevivi e que não tenho (para já) qualquer sequela de tamanha aventura, passemos então à prova.
Curiosamente, apesar de ser um canal estreito, só sofri um pouco a porrada nos momentos iniciais antes do estreitamento. Descobri que a porrada inicial está muito ligada a dificuldades de orientação e como ali não há problemas os ânimos estavam bem mais calmos. Gostei também da força do público, que estava a poucos metros de distância, algo nada habitual nos segmentos de natação.
Correu-me particularmente bem este percurso. Eram 1.500 metros, algo que nunca tinha feito em competição e por isso não forcei muito. Além disso, ia sem fato o que tornava a coisa teoricamente mais difícil. Mas afinal não. Fiz logo de início respiração a cada três braçadas, atingi um bom ritmo sem querer forçar muito e nos momentos finais do percurso sentia-me tão fresco como numa prova de 750 metros. O tempo final espelha isso: 32:46, o que, tendo em conta que em Peniche e com fato tinha feito 16:02, revela que subi bastante na natação e que me dei muito bem com a nova distância.

Ciclismo (40,8km)




A transição foi feita com mais calma que o costume (talvez demasiada, até) com um tempo de 1:25, ou seja, quase tanto como o que demoro com fato. As coisas devem começar a correr melhor quando chegarem as sapatilhas de triatlo que encomendei, mas pelo que parece na loja estão com problemas a processar o pedido e ao fim de 2 meses nada.
A prova, foi do pior. A fazer lembrar Matosinhos, sem quedas mas com poucas pernas. Não consegui integrar nenhum grupo e passei poucos ciclistas. Era muitas vezes ultrapassado e faltavam-me sempre as pernas. Fiz, por isso, grande parte do percurso sozinho ou com mais um ou outro colega.
Penso que, para além da minha falta de pernas, este percurso correu mal por duas outras razões.
Em primeiro lugar, não olhei para a altimetria, pensando que Aveiro era uma cidade completamente plano. Isso não é bem assim, o percurso era feito de altos e baixos curtos mas muito inclinados, incluindo um viaduto por cima do caminho-de-ferro (que são sempre mais inclinados porque têm que vencer as catenárias).
Em segundo lugar, existiam quatro curvas de 180º, sendo que três delas era chegar a meio de uma rua e voltar para trás e noutra era uma rotunda larga. Ou seja o percurso tinha ao todo 24 curvas de 180º, o que me deixou maluco.
Depois da queda de Matosinhos perdi muita confiança nestas curvas e travava demasiado, nessa altura os ciclistas que me acompanhavam ganhavam vantagem e depois tinha que sprintar para os voltar a apanhar, o que raramente acontecia já que poucos metros mais tarde surgia uma nova curva deste tipo.
Depois, com o calor, o bidão que levava comigo não foi suficiente, e nas duas últimas voltas senti muita sede. Devia ter levado dois, por isso, na próxima já sei.
Foi um percurso feito em grande sofrimento e sem qualquer prazer, aquelas curvas e os piques que tinha que fazer desgastavam-me fisica e psicologicamente. Não fiquei nada cliente do percurso, que foi, sem dúvida, o pior que apanhei. Não sei se fará sentido por 24 curvas de 180º num percurso só, talvez haja quem goste, mas eu não, odeio.
Fiz 1:26:27, o que equivale a uma média de 28,3 km/h, uma média fraca, mesmo tendo em conta o tipo de percurso que obrigava 24 vezes a reduzir a velocidade quase aos 0 km/h

Corrida (10 km)

Aproveitei a transição para repor líquidos bebendo meio litro de bebida energética. Demorei 1:35, mas estava mesmo a precisar de algum tempo de recuperação. Contudo, aqui voltei a errar. 10 km sem meias é demasiado, sobretudo com as minhas sapatilhas, que têm tendência a criar bolhas nos pés.
Ao fim de uma volta já estava a ter bastantes dores, e a última volta foi mesmo muito penosa. Basicamente estive a arrastar-me pela corrida tentando acabar o mais depressa possível e com o mínimo de dores.
Quanto ao percurso, era muito mais interessante, também com algumas subidas e passando por zonas com muitas pessoas. Pena que elas pouco ligassem à prova e muitas vezes circulassem a pé pelo meio dos atletas, cheguei mesmo a gritar para algumas pessoas saírem da frente. Mas pronto, o primeiro (o meu colega Pedro Palma) já tinha passado há muito e percebe-se em parte o comportamento.
O tempo final foi fraquinho 52:54, ou seja, acima dos 5 min/km. Malditas bolhas nos pés!!

Resultado Final
Tudo somado: 2:55:09, o que ficou aquém das expectativas. Apontava para fazer no mínimo menos 10 minutos do que fiz. Eu sei que foi uma estreia e cometi vários erros de principiante, mas queria chegar a um resultado melhor. Vamos lá ver se em Setúbal com mais experiência consigo melhorar. São essas as minhas expectativas.
Confesso também que as provas sprint me dão mais prazer. Ou então, Matosinhos e esta prova foram apenas excepções. Vamos ver as cenas dos próximos capítulos.
Quanto à prova, como já devem ter percebido foi talvez o triatlo que menos gostei. Em primeiro lugar a poluição (compensada por um percurso realmente interessante). Seguiu-se um percurso de ciclismo muito pouco agradável e com demasiadas curvas apertadas e tudo acabou num percurso de atletismo interessante mas com um público pouco cooperante. Vamos ver se para o ano melhoram (pelo menos em relação à poluição isto tem que melhorar, sob pena de receberem apenas meia dúzia de triatletas.