sábado, 12 de novembro de 2011

Maratona do Porto - A Prova

A manhã começou cedo (por volta das 6:30) e, depois de nutrido e hidratado segui com o Jorge Carneiro até à partida. Por lá ainda encontrei o Pedro Pinheiro que ia passear (mas um passeio bem mais rápido que o meu, diga-se).
Não fiz qualquer aquecimento, tinha 32 km para aquecer para depois correr mais 10 km em prova, e aproveitei os últimos minutos para me aliviar nos WCs públicos.
Comecei a prova junto ao meu amigo Jorge Carneiro. Sabia que ele ia optar por uma táctica mais ofensiva e logo depois da Casa da Música disse para seguir o seu caminho que depois o apanhava. Mantive um ritmo bastante lento, mesmo a descer, mas confortável.
Ao fim de 10km, sentia-me tão fresco como no início, mas continuava a ser ultrapassado constantemente por atletas (sobretudo da prova dos 14km). Entre eles estava mesmo alguém vermelho da cabeça aos pés. Apanhar muito sol dá nisto.



Nada que me preocupasse muito, já que iria manter as pulsações abaixo dos 80% nos próximos qilómetros.
Pouco depois, surgiu o Paulo Rocha do Triatlo dos Veteranos do Porto que estava a andar mais ou menos ao meu ritmo. Por isso, após alguns quilómetros algo sozinho, tinha chegado finalmente companhia para conversa durante a prova.


Um pouco mais à frente, no final de D. Pedro V estava o meu pai, que não só tinha vindo para aplaudir como também trazia a bicicleta para me acompanhar e tirar fotos durante quase toda a prova.
 

 Foi, por isso, uma boa fase, os quilómetros passavam bem, o cansaço não aparecia e até já começávamos a ultrapassar mais gente, incluindo o senhor de vermelho, já perto da Alfândega. Circulávamos sempre perto dos 5:40, 5:45 por km o que permitia apontar para um tempo próximo das 4 horas. O único senão eram as pulsações que estavam ligeiramente acima do previsto, mas preferia assim do que perder companhia.

 Já perto da Ponte Luiz I, foi-se formando um grupo que ia aumentando de dimensão. Andava-se à tal velocidade que apontava para um tempo final perto das 4 horas, mas as minhas pulsações continuavam entre os 80% e os 85% do máximo, o que era um pouco mais alto do que previra.
O pior aconteceu junto à ponte da Arrábida, onde ao subir um passeio para evitar o paralelo acabei por tropeçar e cair. Com essa brincadeira podia ter ficado fora da prova, mas felizmente soube cair e enrolei sobre o meu corpo, não sentindo qualquer dor. Nessa altura o meu pai não estava connosco, mas o Paulo veio prontamente ajudar-me, esquecendo-se da sua própria corrida. Ainda bem que no desporto se encontram pessoas assim!
Felizmente foi só um susto, e nem 10 segundos perdemos para o nosso grupo. Basicamente passámos da frente para a traseira do pelotão, apenas isso.
Na Afurada, dobrámos a meia maratona e eu continuava a sentir pouca fadiga. Eram excelentes sensações. Quanto ao tempo (2:01:30), batia certo com a ideia de uma primeira metade mais lenta que a segunda parte. E eu sentia-me capaz de melhorar o tempo na segunda metade, muito embora continuasse um pouco acima dos objectivos em termos de frequência cardíaca.
Cheguei a pensar descolar um pouco do grupo que já tinha uns 20 ou 30 elementos para baixar a pulsação, mas era melhor continuar. Boa companhia, bom ritmo, objectivos semelhantes e protecçãodo vento. O que é que eu podia querer mais?
E assim continuámos de regresso às Caves onde estava à nossa espera meia equipa dos Veteranos do Porto, que tinham ficado a comer bolinhos de bacalhau no cais de Gaia à espera do Paulo Rocha para depois acabar com ele a prova. Era uma boa ajuda, que criava ali uma barreira com o vento mas com um inconveniente: como estavam bem mais frescos, começaram a acelerar o ritmo.


Chegámos mesmo a destacar um pouco do grupo inicial, que também já tinha perdido elementos, mas aquele avanço não iria durar muito.


No retorno do Freixo, os veteranos e o Paulo começaram a diminuir um pouco o ritmo e o grupo anterior voltou a marcar o ritmo, e lá fui eu para a frente com eles. Mais tarde apercebi-me que o Paulo já lá não estava, ainda pensei em reduzir a velocidade e acompanhá-lo, mas ele já tinha melhor companhia, por isso decidi prosseguir.


Aos 29 km vejo o Jorge Carneiro muito lento, quase a passo e grito para ele nos acompanhar. Aguentou até aos 30km mas depois acabou por ir outra vez a passo.


Nesta altura não senti o famoso muro, mas começava a sentir algum cansaço, de quem começa a entrar no desconhecido.


Mas o ritmo imposto era bom, agora só estávamos meia dúzia no grupo mas existia um bom entendimento quanto ao ritmo. Muitas vezes impunha eu e outras vezes eram eles que puxavam por mim.


Mas o cansaço começou a apoderar-se de mim e deles. Tinham vindo em conjunto e eram todos da região de Leiria. Alguns ao chegar a Miragaia deixam-se ficar para trás mas eu sinto-me bem para seguir com os da frente. A velocidade foi a maior que tive durante a corrida, cheguei a rolar a 5:15 aos 34km e a 5:25 aos 37, mas quando surgiam os abastecimentos os nossos tempos caíam para os 6 minutos. Agora já não éramos ultrapassados por ninguém e passávamos gente atrás de gente, ganhando moral.

Chego à Cantareira e ainda não choquei com o muro. Muito cansaço, e espaço para lembrar-me de provas com 10km ou 5km de corrida para pensar "É só mais o Olímpico de Aveiro ou é só mais o Duatlo de Espinho". Tento com isso ganhar força mental para levar o ritmo até ao fim. Mas o pior estava para vir.


No Passeio Alegre começo por me refrescar na sombra das árvores, mas antes do Castelo da Foz a estrada empina um pouco e os paralelos irregulares começam a dar cabo de mim. Tento evitá-los primeiro por um lado da rua e depois pelo outro. Sinto uma volta ao estômago mas controlo o vómito e esse sentimento vai aliviando. Com isso reduzo a passada e perco o grupo. Agora estava por minha conta mas com o meu pai ao lado de bicicleta para me dar força. Tomo o último gel aos 38,5 km para não me sentir fraco e meto uma mudança mais baixa. Agora o objectivo não era acabar, porque já faltavam menos de 4 km para a meta e ninguém me tirava a maratona. As 4 horas também pareciam estar longe, por isso apenas queria acabar sem andar a passo e não seria nada fácil.

 

Com o vento de frente, a recta da Avenida do Brasil não parecia acabar, por isso decidi olhar para o Asfalto e não para o fundo. Lentamente fui correndo como podia, com o sofrimento a aumentar cada vez mais, mas continuando a ultrapassar atletas que iam sempre a passo.



Chego à rotunda e tento-me distrair com o que ia vendo à volta e sem querer pensar que ainda ia fazer mais um retorno e subir a Avenida. Só faltava mais um pouco, mas não iria a passo, tinha que conseguir.


No viaduto do edifício transparente olho para o parque da cidade e lembro-me que foi ali que comecei a treinar corrida, e seria ali também que terminaria a primeira Maratona. Exactamente no mesmo sítio, na entrada da Boavista. Ia andar paralelo a um percurso que fiz centenas de vezes com muito prazer, era só mais isso. Começava a sentir-me emocionado e o meu pai ia-me dando ainda mais força.


Quando começo a subir a Avenida lembro-me da última vez que fiz aquele percurso a pé, duas semanas antes. Estava a chover e fui a correr para o carro. Era só mais aquele sprint.

 

Doía-me tudo, mas a meta só não se via porque era na Rua do Parque. A certa altura a estrada deixa de empinar e ganho nova moral (mas nenhuma velocidade), o pior já tinha passado.


Chego à meta completamente exausto, nem sequer chego muito emocionado, apenas cansado. Sinto o apoio do público, de pessoas conhecidas, da Aurora Cunha (sempre a dar-nos força) e, claro, do meu pai. E pronto, estava feita em 4:04:57!


Não consigo correr nem mais um pouco, paro e agarro-me às grades até recuperar o fôlego. No final só tenho forças para dar um abraço ao meu pai e para me sentar. Já ninguém me tirava o título de Maratonista!

2 comentários:

Mark Velhote disse...

Top class!
Excelente relato! Até estou com inveja.
Para o ano faço mesmo sem treino! Ficar fora desta festa é que não!:D

Não fazia ideia que tinhas andado a varrer os passeios de Gaia! Eheh!
Além disso tiveste direito a uma grande reportagem fotográfica!

Muitos parabéns por teres atingido todos os objectivos a que te propuseste excepto o do tempo que apenas vai servir de desculpa para estares na linha de partida no próximo ano!

1 grande abraço
Mark

MT disse...

Acho muito bem que voltes para o ano. É que sem treinares sou gajo para ficar a 45 minutos de ti. Põe-te a pau!!