quarta-feira, 21 de abril de 2010

III Tri.. perdão Duatlo de Matosinhos

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Tal como tinha referido no post anterior, neste último sábado desloquei-me a Leça da Palmeira para o meu primeiro Duatlo Standard, que era, ao mesmo tempo, o Campeonato Nacional Individual.
Desta vez, e por estar perto de casa, cheguei ao local da prova quase 1h30m antes e fui dos primeiros a entrar no parque da transição. Fiz tudo nas calmas, procurei pontos de referência para quando fosse pegar na bicicleta, preparei reforço alimentar e deixei o parque ainda antes da maior parte do pessoal ter chegado.
Aqueci na companhia do João Fernandes e também do Rui Pena, fui até ao retorno final e estava tudo controlado. A única dúvida era em relação às voltas, na net diziam 1 volta pequena + 5 voltas grandes de bicicleta (40km) mas afinal seriam 6 voltas grandes (ou seja, cerca de 43km). De qualquer forma quando desse a primeira volta de bicicleta deveria estar prevenido para as duas possibilidades. Se não fosse esta dúvida seria uma perfeita preparação de prova.

1º Segmento - Corrida (9600m)


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Senti-me bem logo no início, tinha treinado bem, estava bom tempo (sobretudo pouco vento) e sabia que poderia tirar uns minutos ao meu melhor tempo aos 10 km (45:55 em Santo Tirso). Tinha, no entanto dúvidas sobre o ritmo a seguir e talvez tenha exagerado um pouco.
Cumpri a primeira volta praticamente ao ritmo do João Fernandes que estava uns 10 metros à minha frente, e ao fim da segunda, deixei-o escapar uns metros mas estava bem abaixo dos 20 minutos, ou seja menos de 4 min/km. A partir daí senti uma ligeira indisposição intestinal e fui sendo ultrapassado por alguns atletas.
Junto a mim nessa altura estava o Rui Pena, primeiro seguindo o meu ritmo e depois impondo o dele. Fui perdendo algum tempo para ele mas estava sempre uns 10/15 metros atrás Estas duas últimas voltas foram bem piores, mas, no conjunto, o tempo não foi mau (42:47)

Transição e 2º Segmento - Ciclismo (43.400m)




Demorei 1:30 na transição, o que terá sido demasiado. Passei algum tempo a beber, para não gastar o bidão do ciclismo (optei por nunca beber durante o atletismo) e não fui muito lesto a colocar o capacete. Quando saí do parque, o Rui Pena já tinha ido à vida dele há muito tempo e não consegui encontrar um grupo, pelo que fiquei sozinho.
Olhei para o céu, e o calor inicial tinha desaparecido. Uma enorme nuvem cinzenta tapava qualquer raio de sol. Aí comecei logo a pensar "Olha a nuvem do Eyjafjallajokull, hoje ninguém vai sair daqui a voar". Em primeiro lugar, aposto que os meus leitores devem ter alguma dificuldade em dizer o nome do vulcão finlandês e, em segundo, lugar estava bem enganado.
A nuvem, começou a despejar qualquer coisa cá para baixo com muita força. Batia forte fortemente e não parecia ter fim. Seria chuva seriam cinzas vulcânicas? Chuva não era certamente e as cinzas vulcânicas não batem assim. Estava a ver que era granizo.
E, apesar de não ter soprado vento durante a corrida, de repente lá começou ele. Comecei a pensar: "Já vi este filme em algum lado". Pois, tinha visto no ano anterior e era de terror. Chamava-se "Leça Windsaw Massacre" (Ou Massacre no Leça, em Português) e já tinha sido apresentado o ano passado naquele sítio. A única diferença era que nesta sequela fazia-se de sul para norte (e não de norte para sul) e trazia como novas personagens os destruidores Aguaceiros do Horror!
E lá estava eu, no início sozinho no meio do temporal a pedalar. Passei um ou dois atletas que tinham tirado o bilhete do regional e tentei apanhar um Intercidades Veterano que vinha de trás. Ainda seguimos meia volta em conjunto (cada um a puxar de cada vez), mas numa das vezes, quando me vou a levantar, e depois de várias ameaças, o músculo começa a prender.
Apesar de me ter sentido sempre bem em termos cardíacos, em termos musculares percebi que tenho que melhorar. Pela primeira vez senti o peso da transição para a bicicleta, talvez por ter puxado demasiado em 10 km de corrida. Acabei por deixar escapar o meu colega a poucos metros de alcançarmos o grupo da frente, que por sua vez era a junção de dois grupos. Ali terá sido a minha grande perda, já que aquela gente começou a trabalhar bem e eu estava cá atrás sozinho a lutar para me juntar a meia dúzia. Ia também cruzando com o Rui Pena, num grupo de 3, cerca de um minuto à minha frente. Não ia perdendo muito tempo para os da frente mas as dores musculares também não me deixavam forçar um pouco para os alcançar. Por outro lado, ninguém aparecia de trás e eu estava cada vez mais sozinho e a fazer quilómetros e quilómetros sempre em contra-relógio. Mas o pior ainda estava para vir...
Com o aumento da nuvem percebi de repente que as cinzas infiltraram-se nos meus travões e quando chego ao retorno norte na 3ª volta, despenho-me e vou a deslizar pelo chão. Senti tudo em câmara lenta "Olha, não trava! Já perdi o controlo! Vou cair! Já caí! Uff aterrei bem! Vou a deslizaaaaaaaaaaaaaaar! Olha um polícia! Olha um Espectador! Olha o Restaurante Rochedo!" E mesmo antes de entrar por uma janela do restaurante estragando provavelmente um casamento, um baptizado ou uma comunhão, parei de deslizar.


A azul, percurso a cair e a vermelho percurso a deslizar


Nesse momento já estava rodeado por 2 bombeiros. E faço aqui uma referência à excelente organização. Nos retornos estavam bombeiros e ambulâncias bem como junto à partida. Geralmente só dizemos mal do nosso país, mas tenho muitas dúvidas que lá fora existam provas com um grau de qualidade deste tipo. Ainda mal abria os olhos depois da valente queda, que já estavam duas pessoas a socorrer-me. Na altura sentia o lado esquerdo de todo o corpo ligeiramente dorido mas o que me doíam mais eram as pernas. A cãibras estavam ali e eram elas que me impediam de levantar.
Os bombeiros devem ter ficado um bocado atordoados. Então vem este gajo a deslizar pelo alcatrão, bate com o braço como quem parte a clavícula e quase que dá uma cabeçada no chão e põe-se a queixar de cãibras? Deve estar mas é maluco.
Mas, apesar de uma óbvia dúvida relativa à minha sanidade mental, acabaram por me ajudar e consegui levantar-me. Foi aí que vi a minha perna esfolada e senti queimaduras da coxa até à nádega bem como no tórax por baixo. Mas nada que me fizesse desistir.
Não sei quanto tempo perdi ali, mas deve ter rondado os 2 ou 3 minutos. Quando voltei ao selim estava um pouco dorido mas, sobretudo com muito medo. Mentalizei-me: Quero lá saber de tempos, vou é chegar ao final.
Em vez de me cruzar com o Rui junto aos retornos encontrei-o quase a meio do percurso, mas também me apercebi que poucos me tinham passado naquela pausa. Andei bastante a medo, porque o piso estava bastante molhada e quando cheguei ao retorno crítico só me faltou desmontar e fazê-lo a pé, tal a lentidão em que o fiz.
Foram 20 km assim, ainda segui um grupo mas comecei a ter medo de seguir na sua roda e acabar numa queda colectiva e fui ultrapassado por um ou dois ciclistas que até tinha passado antes.
Mas de repente, a pista foi-se tornando vazia. Não percebia porquê, ainda tinham muitos ficado atrás de mim na corrida e não me ultrapassaram assim tantos. Ou tinha tudo desistido ou estava a fazer uma volta a mais ou... havia ali uma série de batoteiros. Perguntei a um membro da organização: São seis voltas, não são? E ele respondeu afirmativamente. E de facto, cruzei-me com o Rui Pena na sua sexta volta, pelo que não devia estar enganado.
Acabei o ciclismo em 1h29, depois de uma segunda parte da corrida completamente à defesa e já com poucos atrás de mim.

2ª Transição e 3º Segmento - Corrida (4.800m)

Como me poupei na fase final da bicicleta, acabei por ultrapassar um pequeno grupo logo na saída da transição. Sentia-me bem fisicamente, já sem cãibras mas com dores devido à queda.
Foi então que percebi o que estava a acontecer. Ultrapasso um atleta veterano que tinha ficado bem atrás de mim na corrida e a quem estiva quase a dar uma volta de avanço no ciclismo quando caí. Como é que ele podia estar ali à minha frente? Tinha que estar quase 10 minutos atrás de mim. E ainda por cima notava-se bem, quando o ultrapassei levava quase o dobro da sua velocidade.
Mas, passando ao importante, na segunda volta senti mais o cansaço e mantive sempre a mesma posição. Ainda vi o João Fernandes em grandes dificuldades e procurei dar-lhe forças, mas mesmo assim acabou antes de mim (e com as voltas todas dadas).

Reflexões finais


Acabei numas verdadeiras 2:39:20 e num falso 95º lugar. Olhando para aqui, é fácil de ver a quantidade de atletas com maus tempos nas corridas que subitamente têm percursos de ciclismo bombásticos. Não me interessam quem são e, de facto, os lugares pouco interessam, mas deixou-me irritado. Se é certo que não estamos ali para competir, também não estamos para fazer batota, e há muito atletas que deviam rever o seu comportamento ético. Por outro lado, a arbitragem é tão exigente com algumas coisas (veja-se o caso de Bruno Pais no Ribatejo) mas deixou que alguns atletas não tenham feito o percurso completo e tenham ganho medalhas nas suas categorias.
Trata-se, por isso, de uma situação a rever. De qualquer forma, prefiro que falhem nisto e que continuem o bom trabalho no resto, nomeadamente com a assistência em caso de acidente.
No final, voltei à cruz vermelha onde fui desinfectado e tratado muito bem.
Hoje já estou menos queimado e quinta volto à piscina. Vem aí Abrantes e Coimbra!

Fotos roubadas escandalosamente à FTP e ao Eurico da AASM

3 comentários:

Rui Pena disse...

Abraço Miguel,

Em Coimbra, lá estaremos.

Rui

MPaiva disse...

paivamiMiguel,

Muitos parabéns pela prova realizada e pela determinação em chegar ao final depois do acidente que tiveste.
Quanto à organização, é lamentável a falta de capacidade em fazer um controlo eficiente do número de voltas de cada atleta. Aliás, julgo que esse sistema de pequenas voltinhas é horrível. Seria muito melhor fazer um percurso maior e que obrigasse a menos voltas do que andar a fazer as coisas dessa forma.

abraço
MPaiva

José Santos disse...

Espero que recuperes rapidamente.